A Vila Baiana da Independência. Feliz 2 de Julho.

A mais sangrenta batalha de independência do Brasil ocorreu sem dúvida na Bahia. O grito do Ipiranga ainda nem ecoava pelos ares do nordeste quando forças portuguesas dominaram a cidade de Salvador tentando assegurar um pedaço deste continente depois da iminente tentativa de independência do Brasil causada pelo famoso “Dia do Fico”. Foi no Recôncavo Baiano que começou o movimento de resistência, no qual milhares de brasileiros, de moradores à refugiados, maltrapilhos, pegaram em armas para expulsar definitivamente os portugueses do território nacional. Uma pequena vila teve a coragem de ser a primeira a se pronunciar contra os colonizadores: a Vila de Santo Amaro da Purificação. Seu centro histórico é marcado pela presença imponente da Igreja matriz barroca Nossa Senhora da Purificação, do ano de 1700, que provoca no observador a sensação de que ali não foi um lugar qualquer.

No dia 2 de Julho de 1823 esta igreja testemunhou a comemoração da vitória de um movimento autonomista que começou ali. A famosa batalha do Pirajá, no dia 8 de dezembro de 1822, encaminhou definitivamente, sete meses depois, a expulsão dos portugueses que ainda alimentavam a esperança de manter a região norte e nordeste sob seu poder. O Brasil queria permanecer do jeito que era, e do jeito que é.

Feliz 2 de julho.

Fontes: http://www.laurentinogomes.com.br/blog/?p=117#                                                                    http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Piraj%C3%A1                                                              http://tudosobresantinho.blogspot.com/2009/07/igreja-de-nossa-senhora-da-purificacao.html                                                                                                                                                  http://www.flickr.com/photos/davidleal13/5652308264/

Imagemhttp://www.abahianews.com.br/2011/03/31/santo-amaro-recebe-repovoamento-de-um-milhao-de-caranguejos/

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Águas passadas de São Paulo: dos plebeus ao Imperador

Este é o rio Tamanduateí no ano de 1862 (foto de  Militão Augusto de Azevedo).Vê-se nas margens a rua 25 de março e mais à cima a antiga igreja do mosteiro de São Bento. Este rio formava uma espécie de delta com seu principal afluente, o rio Anhangabaú. Por isso esta região, que hoje é o centro da cidade, havia sido considerada ideal para José Anchieta e Manuel da Nóbrega se fixarem e darem início ao povoamento da futura maior cidade do país. Como, porém, cuspindo no prato que comeu, esta metrópole “livrou-se” dos seus rios quando lhe pareceu conveniente.  Sobre o Anhangabaú não há o que ver, já que foi completamente coberto e canalizado, assim como boa parte do Tamanduateí e de outros córregos diversos que já não podemos ver mais. O Tamanduateí, porém, tem um trecho ainda a céu aberto, apesar de estar canalizado, retificado e estreitado (assim como todos os outros rios e córregos), na avenida do Estado:

O famoso Vale do Anhagabaú, que um dia foi realmente o vale de um rio, esconde seu homônimo hoje debaixo dessas ruas:

O mais impressionante é que uma das nascentes do rio Anhangabaú pode ser vista perto da avenida Paulista:

Sugiro assistir a este vídeo do projeto “Rios e Ruas” quem tiver interessado nessa nascente e na “redescoberta” dos rios paulistanos:

Outro caso estranho é do córrego do Ipiranga. Das suas humildes margens ouviu-se um brado forte e retumbante que de um jeito ou de outro acabou decretando a nossa independência. Aos pés do monumento à independência, tem-se o orgulho de ver as águas que presenciaram este fato histórico. E o cheiro é dos piores. Aproveite a característica inodoro das fotos:

Mais à frente, na avenida Ricardo Jafé, ele fica assim:

Para se compreender melhor a complexidade dos 1.500 Km de águas que correm pela capital paulista, é interessante dizer que os maiores rios da cidade são o Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. Este último termina no primeiro. Teodoro Sampaio escreve sobre a navegação no Tietê e no Tamanduateí no final do século XVI: “Embarcados na sua canoa o padre, o negociante, o fazendeiro, o simples homem do povo podiam atingir qualquer ponto da zona povoada em torno de São Paulo”. O rio Anhagabaú é menor, e tem a sua foz no Tamanduateí. Veja que bonito o local de encontro desses dois rios que são referências e motivo de orgulho para o paulistano (imagine o rio Anhangabaú passando por debaixo do mercado municipal):

Cada um desses rios é formado por dezenas de córregos, alguns a céu aberto e a maioria coberta por ruas e avenidas. Essas águas que correm debaixo dos nossos pés são um patrimônio que ainda existe. Suas águas e suas várzeas nos contam algumas histórias, como da primeira partida de futebol ocorrida no Brasil, do processo de construção de uma Vila por um colégio Jesuíta, do dia em que o Brasil resolveu ser independente, do dia em que deixamos de ser uma vila e nos tornamos uma cidade.

Benedito Calixto nos rememora um pouco:

 

Termino este texto com uma foto de um córrego em São João Del Rei, MG:

É estranho dizer que São Paulo prima pelas opções culturais quando na verdade seus alicerces não são tratados como tal.

 

Fontes: http://www.aprenda450anos.com.br/450anos/vila_metropole/1-5_rio_tamanduatei.asp                                                                                                                                    http://hubescola.com.br/events/bike-tour-rios-e-ruas                                                              http://www.arquiamigos.org.br/info/info05/index.html                                                              http://ipirangablog.blogspot.com/2009/05/5.html                                                                      http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Tamanduate%C3%AD                                                            http://alessandra-amato.blogspot.com/2010/05/radiestesia-e-o-anhangabau-sao-paulo.html                                                                                                                                                   http://pt.wikipedia.org/wiki/Ribeir%C3%A3o_Anhangaba%C3%BA

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A cidade esquecida no tempo

Diz a lenda que a 204 Km de São Paulo, trafegando pela rodovia Régis Bittencourt, chega-se a uma pequena cidade que possui uma grande história. A linha do tratado de Tordesilhas ladeava o lugarejo e por isso guerras foram travadas entre o governo Português e os então habitantes e invasores da região no início do século XVI. Habitantes estes que lá se encontravam mesmo antes de 1500. Sua data de fundação é incerta, mas sua riqueza não. Foi o primeiro lugar no Brasil onde o ouro foi encontrado em abundância. A primeira casa de fundição (tão comum nas cidades históricas de MG) do Brasil ainda se mantém de pé no centro desta cidadela.

O ouro acabou e a cidade esperou pelo século XIX para voltar aos áureos tempos da riqueza com a produção do arroz. Tão rica a ponto de ser criado um canal de água doce que corta a cidade para facilitar o transporte da produção em direção ao mar. Mar que se estende ali por toda Ilha Comprida, de fronte à esta cidade histórica. Algumas pessoas chegam a este local para dali visitar alguns quilômetros de praia semi-deserta na reserva ecológica da Juréia, em direção à Peruíbe, o que ainda fortalece a autenticidade da região.

O mais interessante é que a cidade ainda está lá, segundo boatos. Abaixo uma foto de alguém que diz que esteve lá. Esta imagem não é uma montagem:

Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Iguape#Mar_Pequeno                                                                    http://www.brasilpassoapasso.com.br/blog/?p=132

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A pena de ouro – nuances da Lei Áurea

Há exatos 123 anos, a Princesa Isabel assinava a Lei que abolia definitivamente a escravidão no Brasil. A tendência já era antiga. D. Pedro I e José Bonifácio já haviam deixado claro em seus escritos que a escravidão era muito ruim para o país. D. Pedro II também o achava, tanto que a família Real no segundo reinado não tinha escravos. Os negros que trabalhavam no palácio eram pagos. Há boatos de que a Princesa Isabel chegou a visitar um quilombo, e até ter recebido dele o símbolo do movimento abolicionista: uma camélia, que ela usava por vezes em sua roupa. Como a monarquia no Brasil não era nem de longe absolutista e como grande parte da riqueza dependia muito dos cativos, a Lei só saiu mesmo no penúltimo ano de Império. Graças à manobras da Princesa Isabel (o pai, D. Pedro II, tratava da saúde na Europa), que pela primeira vez havia demonstrado gosto em se a ver com os negócios públicos, a Lei foi aprovada no Senado em 12 de Maio de 1888:                                                   

O Senador Barão de Cotejipe, o qual havia votado contra a Lei, teria dito à Princesa: “A Senhora acabou de redimir uma raça, mas perdeu o Trono”. A Princesa teria respondido: “Mil Tronos eu tivesse, mil vezes assinaria”.

Três vias da Lei foram assinadas com três penas diferentes. A primeira pena pertencia à D. Pedro Carlos, descendente do primeiro filho da princesa. Foi vendida ao Museu Imperial de Petrópolis por R$ 500.000,00 e está lá exposta. As outras duas penas pertencem à mais antiga potência maçônica brasileira: Grande Oriente Brasil.

Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_%C3%81urea                                                                            http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Oriente_do_Brasil                                                            Livro “D. Pedro II”, de José Murilo de Carvalho                                                                         Livro “Princesa Isabel do Brasil, Poder e Gênero no Século XIX”, de Roderick J. Barman.

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O pouso morto de D. Pedro I

A independência do Brasil seria proclamada por D. Pedro I na chegada à cidade de São Paulo, vindo de Santos, em 7 de setembro de 1822. Algumas semana antes, no caminho para a capital paulista, o futuro imperador atravessou a fronteira do RJ com SP pelo Vale do Paraíba. Nesta viagem, conhecida como Viagem da Independência, D. Pedro I fez diversas paradas em várias cidades paulistas do Vale que estavam a ponto de se tornarem as cidades mais ricas do país graças ao café. Essas cidades hoje fazem parte do esquecido  circuito do Vale Histórico (http://www.caminhosdacorte.com.br/). Pouco antes de se tornar rico pelo cultivo do café, o Vale do Paraíba foi palco desta viagem marcante para nossa história.

 Este é o centro histórico da cidade de Areias, no coração do Vale Histórico. Esta cidade de mais ou menos 3.693 habitantes foi uma das primeiras a cultivar o café em SP e foi uma das cidades mais importantes e ricas do estado no século XIX. Antes, porém, serviu de passagem para D. Pedro I na Viagem da Independência. Mais do que isso, o futuro Imperador passou uma noite de agosto nesta cidade para trocar os cavalos. E dormiu onde hoje funciona este hotel, que conserva a arquitetura original daquela época:

A cidade hoje quase não recebe turistas, suas atrações históricas nem constam no Guia 4 Rodas e sofrem para se manter. Este hotel sobrevive como pode cobrando diárias extremamente baratas. A Estrada dos Tropeiros, que passa por aqui e por todo circuito histórico, está esburacada e largada às traças (http://www.vnews.com.br/noticia.php?id=79890). Esta “cidade morta”, como caracterizou Monteiro Lobato, recebe corajosos turistas interessados pela história do país. Essas pessoas são anônimas e ignoradas, assim como os objetos da sua paixão.

Fontes: 

Fotos – http://osprimosdeodete.blogspot.com/2009/10/areias-sao-paulo.html                                   http://www.baixaki.com.br/papel-de-parede/43549-areias-sp.htm

Informações –   http://www.laurentinogomes.com.br/blog/?p=76#                                                                      http://pt.wikipedia.org/wiki/Areias_(S%C3%A3o_Paulo)                                                          Livro “1822”, de Laurentino Gomes.                                                                                                           “Cidades Mortas”, de Monteiro Lobato.

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A Capela Imperial e a nova Catedral

 

Esta é a Catedral Metropolitana de São Sebastião, na cidade do Rio de Janeiro. Sua construção terminou no ano de 1972 e é considerada desde 1976 a Sé, ou seja, a Catedral e sede da arquidiocese do Rio de Janeiro. No seu subsolo existe o museu de arte Sacra, com muitos objetos da época em que a cidade era  a capital do Império Brasileiro. Sua arquitetura é obviamente moderna e sua construção foi coordenada pelo Monsenhor Ivo Antônio Calliari. Não podemos considerar esta construção como Patrimônio Histórico ainda, e por isso essa Catedral nos suscita uma questão: Qual igreja anteriormente era a Sé da cidade do Rio de Janeiro e por que esses objetos do período imperial não estão expostos lá?

                                       Esta é a Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo ou Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé. Ela está localizada no centro, de frente para a praça XV de Novembro, onde fica o Paço Imperial. Ela foi construída de 1761 a 1770 substituindo a primitiva capela da Ordem dos Carmelitas, que se estabeleceram ali ainda por volta de 1590. As obras ficaram a cargo do Mestre Manuel Alves Setúbal, e a talha em ouro do interior, no estilo rococó, foi feita por Inácio Ferreira Pinto a partir de 1785. Desde então essa é a principal igreja da cidade, sendo conhecida por Capela Real a partir da chegada da corte portuguesa no Rio em 1808. Era nessa igreja onde a corte vinha cumprir suas obrigações cristãs. A partir da independência do Brasil ela foi conhecida como Capela Imperial. D. Pedro I foi sagrado Imperador do Brasil aqui, assim como D. Pedro II. A Princesa Isabel se casou aqui com o Conde D’Eu em 1864.

Sua fachada foi diversas vezes alterada ao longo da história, perdendo os seus traços originais. Mas ela continua ali. A região do centro do Rio, perto do porto, foi extremamente marginalizada. A área nobre e o turismo na cidade se deslocaram para a região sul, onde ficam as praias e o lago Rodrigo de Freitas. Devemos nos perguntar por que uma região tão importante foi abandonada dessa forma, a ponto dessa Igreja tão fundamental para a nossa história ter se tornado um lugar que não está nem entre as prioridade do turista desavisado. A construção da nova Sé foi um sinal: a primeira parte da pergunta feita no começo deste texto foi respondida. A segunda parte eu não saberia responder, mas tenho lá minhas hipóteses…

Fontes:

fotos – http://www.flickr.com/photos/rodrigo-alves/4370025313/                                                      http://fr.fotopedia.com/items/flickr-3203105496                                                                        http://www.sunrisemusics.com/rio.htm                                                                                          http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Rio-OldCathedral.jpg                                         

                                  Informações- http://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_S%C3%A3o_Sebasti%C3%A3o_do_Rio_de_Janeiro

http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_de_Nossa_Senhora_do_Monte_do_Carmo

http://www.catedral.com.br/

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O Casamento Real e o Abandono Virtual

Este é o palácio de Buckingham, em Londres. É aqui que reside, desde 1837, a Família Real Inglesa. Na última sexta-feira o príncipe se casou na Abadia de Westminster e depois foi ao palácio com sua mulher, onde da famosa varanda acenaram e deram dois beijos meio sem graça para as milhares de pessoas que cercavam a residência Real.

 Este é o palácio da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Foi residência de D. João VI a partir de 1808, sendo a ele doada pelo comerciante português Elias Antônio Lopes. Sofreu depois algumas reformas adequando-se ao estilo neo-clássico atual. Após a independência continuou como Residência Real de D. Pedro I, tendo nascido e crescido lá D. Pedro II e a Princesa Isabel. Resumindo, foi a casa da família Real Brasileira durante todo período monárquico.

Não há, atualmente, menções sobre este período no local. Ele funciona hoje como Museu Nacional de História Natural. É uma referência nesta área porque possui um incrível acervo de fósseis, múmias, meteoritos, etc. E para fechar com chave de ouro: atrás do palácio funciona o zoológico. Para quem for ao Rio de Janeiro aconselho visitar o local, mas não procure por móveis, salas conservadas, histórias, fatos importante ocorridos ali, fotos da época, etc. Admire de fora e só pague para entrar se seu interesse for mesmo na História Natural. 

Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Quinta_da_Boa_Vista                                                                    http://www.riodejaneiroaqui.com/portugues/q_museunhn.html                                                                              http://pt.wikipedia.org/wiki/Pal%C3%A1cio_de_Buckingham                                                                                     Prefácio do livro “1808”, de Laurentino Gomes. 

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